
Bastante conhecida no mundo na moda, Júlia Petit é a grande responsável pelo sucesso do site Petiscos. A ruiva esteve na #cpbr5 para uma conversa sobre blogs femininos, junto com outras blogueiras que também falam para esse universo. Conversamos com ela sobre internet, publicidade e conteúdo. Fã declarada da Campus Party, ela indica uma passadinha no evento para todo mundo que trabalha com internet. Quer saber o que mais ela pensa? Confere só:
A #cpbr5 foi sua primeira vez na Campus?
Júlia Petit: Não, também vim ano passado para conhecer e assistir a palestra do Steve Wosniak. Esse ano eu vim fazer a mesa redonda com as meninas da internet e assistir o Michio Kaku, que eu amo.
O que achou da palestra do “físico do impossível”?
Júlia: Achei um pouco comercial, talvez. Ele não falou muitas coisas que a gente já não tinha ouvido ele falar. Mas eu o adoro e amo física. Bem nerd mesmo, do tipo roots (risos). Podia ter mais física na palestra, foi só disso que eu senti falta.
O que mais despertou seu interesse na #cpbr5?
Júlia: Estou gostando de ver que há muitos assuntos envolvendo democracia com internet, além de controle da informação. Foi falado do movimento que há na Espanha. Esse tipo de movimentação aqui na Campus Party me interessa bastante, pois tem super a ver com o que está acontecendo no mundo.
Já que você mantém um site sobre moda e é bastante ativa nas mídias sociais, qual seu interesse pelo tema aqui na Campus?
Júlia: As mídias sociais tem tudo a ver com a capacidade de você poder movimentar as pessoas e o quanto você consegue influenciar as pessoas a pensar um pouco mais além do que elas fazem. Eu acho que o que eu tenho pra fazer de moda tá feito, é simples, eu to fazendo. Mas a gente pode - inclusive em moda ou beleza - levar as pessoas a pensarem um pouco além e influenciarem seus próximos a fazerem um pouco mais nessas áreas e também no que diz respeito a comportamento de moda. A internet tem muita informação disponível e as pessoas precisam aprender a focar nessa informação e usar ela a seu favor, seja para qualquer coisa. E não ser vítima dessa informação.
Especificamente sobre os blogs de moda, como você acha que essa enxurrada de informação deve ser tratada?
Júlia: Essa é uma área em que é muito fácil você falar qual sapato é bonito, qual bolsa é bacana. Daqui a pouco você vai poder ter um script ou um bot que vai lhe dizer qual é a peça mais falada da internet e você não vai precisar nem mais escrever sobre aquilo. Eu acho que é hora de ir um pouco além disso. Tem gente que está trabalhando há muito tempo na área e tem gente que está chegando agora. A onda mais nova, ou seja, a maioria, ainda é um pouco superficial. Não acho isso errado! Acho importante que todo mundo tenha espaço para falar qualquer coisa, seja ela ótima ou inútil. Eu gosto do caos da internet, mas é legal que as pessoas se preparem para discernir o que é importante para elas e o que não é. Em outras palavras, quando essas pessoas estão sendo usadas pela informação e quando a informação está sendo útil para elas. Você tem que usar a informação, a informação não pode te usar! Estamos vendo muita gente reclamando da superficialidade dos blogs e o quanto as pessoas estão usando disfarçadamente o conteúdo de blogs para promover coisas de uma maneira escondida.
Você se refere aos posts pagos? O que você acha disso?
Júlia: Eu venho do mercado publicitário e sei o quanto ele é capaz de assediar para que os blogs passem a informação que eles querem. Mas é muito importante que as pessoas que escrevem na internet saibam que elas são a mídia e, por isso, mandam no conteúdo que será publicado. É maravilhoso que a gente tenha assédio do mercado publicitário, porque a gente precisa se sustentar. Eu, por exemplo, tenho vários funcionários e preciso de patrocínio para continuar com meu site. Mas, também é muito importante que antes de falar sim para o cliente você fale não. Antes que o cliente diga o que quer fazer, eu preciso dizer para ele o que eu posso fazer e se eu posso fazer. Se você pretende trabalhar por um bom tempo e ter credibilidade, você tem que respeitar seus leitores, seus clientes, e a você mesmo. Se você não se machuca, e não machuca os seus leitores, o seu cliente vai sair ileso. Sem respeito por seus leitores ou por você, esse mal também será feito para o cliente. Infelizmente, muitas vezes esse cliente tem uma visão curta. Ele quer o ‘agora’, mas daqui a 5 minutos, isso pode repercutir negativamente nas redes sociais.

Qual sua dica para quem pretende investir em blogs como fonte de renda?
Júlia: Não queira abraçar tudo! Entenda o que é bom para você e o que é importante você mostrar para os seus leitores. Separe publicidade de conteúdo, claramente! Não misture as duas coisas, não tente enganar as pessoas. Post pago é um break comercial. Ele deve ser claramente descrito como “post publicitário”. Mas no post publicitário, é a voz do blog que deve falar, é assim no Petiscos. Se você não deixar muito claro que aquele é um conteúdo publicitário, você estará prejudicando seu leitor, seu cliente e a você mesmo, que acabará perdendo credibilidade. Quando um blog tiver mais publicidade do que conteúdo autoral, ele acaba perdendo importância.
Ao mesmo tempo, temos muitos blogs importantes que fazem exatamente isso…
Júlia: Então, é um tiro no pé! Se, para cada post autoral, existem cinco publicitários - ainda que o dono blog esteja tentando disfarçar -, aos poucos essa audiência vai sendo dilapidada. Isso vai refletir nos próprios anunciantes, que vão pensar ‘putz, mas esse blog não tem a mesma audiência de antes’. E o que é pior: existe uma discussão muito importante que deve ser feita com as agências e com as blogueiras, sobre o que é audiência e o que é influência.
Qual a diferença entre audiência e influência?
Júlia: Nos últimos dois meses vem se provando que pequenas audiências tem muito mais influência do que grandes audiências. Você tem uma audiência alta, mas o quanto você consegue mobilizar sua audiência? Por exemplo, se uma menina tem um milhão de seguidores no twitter e outra tem 2 mil, mas essa menina que tem menos consegue provoca seus leitores a ponto de promover ações que tenham resposta, de nada adiante ter um milhão de seguidores, se eles não forem ativos. Isso também vale para os blogs. Tudo tem a ver com a sua credibilidade e com o engajamento que ela provoca na audiência. Se você for apenas uma máquina de produzir conteúdo ‘jabazístico’, você não tem engajamento. Você pode ter leitoras que entram no site para olhar uma vitrine, mas isso não é engajamento!
Como o mercado publicitário atual entende o relacionamento das marcas com os blogs?
Júlia: Sou feliz de ter vindo do mercado publicitário e conversar isso com os anunciantes. Esse é um movimento lento. Até os anunciantes descobrirem a força dos blogs na internet, demorou. Agora eles devem entender se quem fala por eles tem influência suficiente pra falar por eles, e não só pendurar um anúncio num site. Outra coisa que eu vejo é a redundância de informação. Quantos blogs falando sobre o mesmo assunto você precisa? Sendo que todos eles estão falando para a mesma audiência. O cliente deve entender que, se você tem uma mídia que fala sobre o mesmo segmento, você não precisa ter 12 mídias que falem para esse mesmo segmento. Você estará falando com a mesma pessoa 50 vezes e essa pessoa já entendeu! Não hiperexponha o seu produto, porque as pessoas acabarão rejeitando esse produto.
O cliente deve interferir no texto do post com conteúdo publicitário?
Se o cliente quer colocar um texto dele no site, ele deve comprar um anúncio. Existem vários meios de publicidade clássica na internet cuja mensagem é feita pelo próprio redator da agência, como banners, splashs ou pop ups. Se ele me contrata para falar sobre o produto dele no site, ele quer que seja a minha voz que fale sobre o produto dele. Falta uma experiência de mídia e de publicidade para entender que isso é diferente de um post.
O que você acha do ‘boom’ em torno das mídias sociais?
Júlia: Esse é um mercado em evolução. Sempre estranho a denominação ‘Especialista em Social Media’. As pessoas dão curso disso… mas como assim? Meu amigo, o que você falou ontem, hoje não vale mais! Cada dia a gente aprende um pouco, mas é preciso prestar atenção nas pessoas. Preste atenção nos seus leitores, nos seus anunciantes e no seu mercado. Os ciclos de internet são muito rápidos e é importante se manter honesto. Se você entrega aquilo que promete; apresenta números reais; não mente audiência e dá voz aos leitores, você ganha respeito do cliente e consegue mantê-lo.
Se o blog não aceita comentários negativos, o cliente também perde. Um leitor que faz uma crítica ao produto na internet, essa é uma pesquisa importantíssima que você deve apresentar ao cliente, e não esconder, pois isso é muito útil para ele. Não seja maniqueísta quanto a audiência.
Qual sua dica para quem tem um blog de moda de sucesso e vida longa?
Júlia: Saia do conforto do seu mercado e comece a se relacionar com as pessoas da sua mídia. Sua mídia não é a moda! Então, comece a prestar atenção na sua ferramenta! Só assim você conseguirá permanecer no seu mercado e mostrar que tem engajamento com a cena da internet. Sinceramente, espero que mais pessoas saiam da sua zona de conforto. Alguns pensam ‘ah, a Campus Party é um lugar de nerd’. Não, é um lugar do que a gente - que escreve na internet - faz! Você vai na Fashion Week, mas faz o favor de passear na Campus Party também, porque isso vai ser muito mais importante para quem escreve na internet, do que ficar olhando roupa. Qualquer pessoa pode fazer olhar roupa. Mas entender o meio em que atua, exige um pouco mais de trabalho!
Conselho de quem entende! Tem blog? Então fique atento para não perder a próxima Campus Party Brasil. 