
O que eu vou contar a seguir é uma história real, um enredo já antigo, daquele tempo em que ser estudante, ter opinião e se rebelar ainda podia ser considerado como hábito de “grupos de risco”. Até não muito tempo atrás, quase “todo mundo” se lembrava de como eram os tempos da ditadura militar, da perseguição, seqüestro, tortura e morte dos oposicionistas e, é lógico, da grande freqüência com que os estudantes eram alvo de pancadas por parte das “otoridades” de plantão.
Muita gente ainda se lembra da dramática invasão da PUC – Pontifícia Universidade Católica, pela Polícia Militar de São Paulo, comandada pelo Coronel Erasmo Dias na noite de 22 de setembro de 1977, ainda durante a presidência do General Ernesto Geisel. Os estudantes sofreram muito naquela noite tenebrosa. O campus universitário foi cercado pelos soldados, todos foram presos e enfiados em dezenas de camburões, muitos foram agredidos a socos, pontapés e cassetetes, algumas alunas sofreram queimaduras graves ao serem atingidas diretamente por bombas de gás lacrimogêneo e por aí foi. Muito choro e ranger de dentes pelo “crime” de ter opinião.
E vejam bem, tudo isso aconteceu porque o General Geisel foi aquele que iniciou a chamada abertura política “lenta, gradual e segura”. Imaginem como deviam ser os milicos mais “linha-dura” daquele tempo. Pois bem, a minha estória não é desse tempo. O que vou testemunhar foi um acontecimento diferente, mas que também envolveu arbítrio, truculência e invasão da Universidade. E, novamente, a vítima foi a estudantada da PUC – São Paulo.
A coisa toda aconteceu em 1986, quando a “Rádio Xilik” iniciou a transmissão a partir de um Centro Acadêmico. A “Rádio Xilik” era muito, digamos, peculiar. Era uma das primeiras “rádios-pirata” do país, não tinha autorização federal para operar e também não tinha medo de provocar a sociedade burguesa, os conservadores e os generais. A polícia só não invadia a Universidade para lacrá-la porque o presidente na época era o “inesquecível” José Sarney, o primeiro mandatário civil do país depois de décadas de ditadura. E, com certeza, tanto ele como o Governador Franco Montoro (também civil, do PMDB) não poderiam autorizar uma nova invasão da PUC, não pegaria bem...
Tudo começou quando o pessoal do Centro Acadêmico e da “Rádio Xilik” resolveu organizar uma exibição de cinema alternativo. Nossa, cinema alternativo na PUC! Calma, não foi assim como muitos devem imaginar. Menos, bem menos. Não teve cinema cheio, cobertura jornalística, nada disso. Não teve nem cinema. A exibição era feita num prosaico televisor 27 polegadas. A grande novidade ficava por conta da tecnologia de fita de vídeo, aquelas fitas VHS que hoje são coisa do passado.
O problema todo é que um dos filmes a ser exibidos era o tal de “Je Vous Salue Marie”, que significa “eu te saúdo Maria”. Um filme em que o diretor (o Godard) ambientava um suposto retorno do filho de Deus em Paris na década de 1980, nascido no lar de José (um taxista) e Maria (uma trabalhadora de posto de gasolina). E o Centro Acadêmico divulgou a Deus e ao mundo que ia exibir o tal do filme. E qual o problema disso? O problema é que setores da Igreja não gostaram, setores conservadores da Nação também não aprovaram e até a liga das “Senhoras de Santana” (uma organização de donas de casa conservadoras de um bairro de São Paulo) protestou. Os protestos chegaram aos ouvidos do “inesquecível” José Sarney, que “avisou” que não toleraria a “afronta” de um filme desses ser exibido em um televisor de 27 polegadas com tecnologia VHS no meio de um campus universitário.
“Noite de cinema” na PUC em 1986. A grande maioria dos estudantes não estava nem aí, afinal nem todo mundo que passava pelos pátios da Universidade sabia da exibição. No meio de tudo, a tela era diminuta e o som, impossível de se escutar. Mesmo assim, muito mais por convicção cívica ou teimosia, uma pequena multidão estava ao redor da TV. Nos balcões ao redor do pátio (ou corredor, na verdade) dezenas de outros estudantes tentavam “pescar” alguma coisa. No meio daquele grupo tinha até pai e mãe de aluno exercendo o direito de ver um filme. Mesmo porque a nojenta censura da ditadura militar tinha sido derrubada, não valia mais. Mas aí...
Tiros, gritos, correria, gente tropeçando, estudante caindo, outros empurrados, garotas gritando, outras chorando, novamente o Inferno da repressão atingia a PUC, parecia a repetição da noite tenebrosa de 9 anos antes.
Sim, um grupo de repressores invadiu a PUC de novo, dessa vez era a Polícia Federal, na verdade um pequeno grupo. E dando tiros para o alto! Gerando pânico total. Bem depois de tudo descobrimos que os tiros, na verdade, eram “de festim”, só para assustar. Mas até aí, como se dizia na época, “já morreu o Neves”. Na hora ninguém sabia e o pânico eletrizou a multidão inteira.
Os policiais não tinham ordem somente para interromper a exibição. A verdadeira missão deles era “simbólica”: apreender a fita do “Je Vous Salue Marie”. Eles não perderam tempo e atravessaram a multidão em direção à TV. Contudo, mais que rápido, o Amaral, o dono do “Sebo do Amaral” correu, chegou primeiro, arrancou o VHS do aparelho e sumiu na multidão. Aí, os meganhas da PF ficaram desnorteados. Por uma questão de segundos, ficaram sem saber o que fazer. Acho que eles estavam se comunicando com rádios portáteis (celular naquele tempo, nem em sonho) para definir se faziam uma busca da fita ou se levavam algum dos estudantes – talvez um dos responsáveis pelo Centro Acadêmico – como “troféu”, para demonstrar “otoridade” e até processar.
Mas aí é que o inesperado aconteceu. Na minha memória, parece que uma corrente elétrica passou pelo chão a atingiu todo o mundo. Não sei se foi também a frustração dos repressores que ficou patente para todos, mas lembro muito bem que, de repente, qualquer vestígio de medo na multidão sumiu, evaporou no ar. Posso garantir o que eu senti naquele segundo. Não é que sumiu o medo. O negócio é que veio à tona um sentimento de indignação, uma indignação cívica, que depois virou raiva, que depois resvalou para o ódio. Ódio de ver um país atravessar décadas de ditadura e ignorância e ver um presidente querer censurar um filme em uma Universidade. E vejam bem, o Sarney não tinha nem autoridade para censurar, isso já era proibido, ele tinha apenas a “otoridade” para mandar.
Indignação total por termos lutado pelas Diretas Já, um movimento pela eleição direta para presidente, frustrado em plena decisão no Congresso Nacional com o peso de vários congressistas da famigerada ARENA, partido que depois virou PFL e hoje se chama DEM. Enfim, do ponto de vista da democracia tudo dera errado. Até o Tancredo Neves, que foi eleito indiretamente pelo “Colégio Eleitoral”, morreu dias antes de assumir, o que resultou na posse na vaga da presidência nacional a...José Sarney! Enfim, a raiva era imensa. Tudo era o pior do pior.
Eu só sei que uma enorme multidão desceu das salas de aula e cercou o grupo de policiais aos berros, mas berros mesmo. A galera gritava fora, vai embora, gritava outras coisas que nem preciso reproduzir aqui. E afrontava também. Ao mesmo tempo em que gritávamos, cercamos as “otoridades”, fazendo-os retroceder. Até descerem pelas rampas de entrada, até saírem para a rua. Lembro muito bem que, em dado momento, um deles agarrou o meu punho e tentou me levar para dar um “passeio”. Nesse exato instante, uma turba furiosa de estudantes caiu em cima de tudo e esparramou o grupo de policiais, que ficou mais acuado ainda.
Eles foram postos para fora, saíram pela Rua Ministro Godoy. Mas a multidão não se contentou com isso. A indignação era tão sem tamanho que a multidão queria que eles fossem para longe da quadra da PUC. A coisa aconteceu totalmente sem controle. Em dados momentos, já em plena rua, vários policiais – completamente transtornados e humilhados – chegaram a apontar os seus revólveres diretamente para a multidão. Pois bem, até hoje eu agradeço pelo fato de ninguém ter arremessado uma carteira escolar neles, a conseqüência disso poderia ter sido péssima.
Calma, está longo o texto? Tem mais. Pois bem, não queríamos aqueles repressores perto da PUC, então a massa os empurrou rua abaixo até eles dobrarem uma outra esquina. Ninguém se intimidava, nem com as armas. Eles dobraram à esquerda na Rua Homem de Melo. E nós ficamos lá, uma grande multidão. Aí veio o impasse. Eles não queriam pegar a viatura assim e sair de fininho. Não dava para isso, os repressores estavam perplexos.
Para separar os dois grupos, certamente o Governador Franco Montoro mandou um batalhão da PM. Agora uma coisa é clara para quem esteve lá. Certamente a PM chegou com ordens de fazer um “tampão”, estavam absolutamente proibidos de prender ou agredir um estudante sequer.
Na verdade, acreditem, eu vi até alguns soldados da polícia militar levando chute de estudante. E sem revidar! Foram outros tempos. Aí, eles conseguiram, divertiram a massa de estudantes com a PM. Eles ficaram lá e escutaram a ira dos outros. Hoje eu tenho pena daqueles soldados. Mas nem tanto. Porque novamente a coisa ia sair de controle.
Agora era a vez da PM escolher um dos “baderneiros” para levar de troféu e exibir seu poder. E justamente quem eles escolheram para passear? Não, não fui eu. É lógico, estávamos na década de 1980! Perfeito, eles escolheram um punk! O “que” eles poderiam levar de melhor? Nem “estudante” ele parecia, certo?
Qual exemplo de rebeldia e agressividade contra o sistema poderia ser melhor do que aquele punk, vestido a caráter, com cabelo moicano, roupa preta, piercing e bota? Tinha que ser, botaram o punk no camburão. O problema todo (de novo, lá vem o problema) é que a multidão ensandecida não deixou eles irem embora. Cercaram o camburão, não o deixaram sair, fizeram coro (- solta o punk, solta o punk). Não arredaram o pé do lugar, ninguém saiu.
Até que a PM resolveu soltar o punk. Na verdade, imagino o comandante da tropa levando um tranco do Palácio do Governador, pois me parece que realmente, ele não tinha ordens de levar ninguém daquele “evento”. Mas sabe como é, não deve ter sido fácil para os soldados da PM não terem agredido ou levado alguém embora, afinal esse foi o “costume” por décadas até aquele dia. Até hoje eles agem assim, basta ver como a PM de São Paulo – mandada pelo Governador José Serra – tratou os professores em manifestação há algumas semanas atrás.
Voltando no tempo, libertado o punk, o clima mudou completamente. A turba se acalmou, alguns continuaram gritando, mas foi mais por alívio. A adrenalina caiu e terminou um fato em que um “sentimento coletivo” de movimento esfriou. Comemorarmos, batemos palmas, voltamos exaustos para o campus. A verdade é que tudo terminou bem porque estávamos em outro momento histórico. Nada disso seria possível no auge de um governo militar. Mas eu acho que a validade do enredo todo é essa mesmo: a contextualização histórica. Não é notável tanto pela “valentia”, mas sim pela indignação. Uma indignação cuja demonstração só foi possível justamente porque estávamos em um momento de transição.
Depois disso, eu me lembro de outra coisa. Na sexta-feira seguinte, a PUC “caiu nas graças” de todos os punks da cidade. Teve até uma “festa punk” bem no meio do campus. Uma “festa punk” no “Pátio da Cruz”.

Este artigo pertence ao
Olhar Analítico.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.