
Para quem almeja ser respeitado como um autêntico membro da Classe Média, dizer que conhece alguém famoso pode render bons frutos.
Faz parte da conduta médio-classista buscar argumentos para se mostrar ao mundo como um ser humano com características especiais, como se fizesse parte de um seleto grupo da mais apurada genética, a quem as pessoas comuns devem admirar simplesmente por ser quem é. E nada encaixa melhor nesta descrição do que uma pessoa considerada “famosa”. Por isso, quem afirmar em uma roda de amigos de Classe Média que possui qualquer tipo de ligação com uma pessoa famosa, certamente obterá a atenção imediata de todos, desde seus interlocutores diretos até aqueles envolvidos em conversas paralelas.
A definição de “famoso” não é de difícil compreensão. É o sinônimo de “celebridade”. Se tiver dificuldades com o termo, utilize a regra que nunca falha: famoso, ou celebridade, é quem aparece na TV (a glória suprema da raça humana). A expressão pode abrigar várias categorias de pessoas: músicos, políticos, jogadores de futebol, modelos, participantes de escândalos, apresentadores de programas diversos, jornalistas e um sem-número de ocupações. “Artista” também é uma nomenclatura bastante utilizada, por possuir o mesmo sentido e se aplicar a todos os exemplos acima. Outra regra: parceiros sexuais de celebridades também são celebridades. Aprendeu? Então responda, qual dessas duas pessoas é famosa: José Saramago, ou o “Cabeção” da novela Malhação?
Tornar público o fato de conhecer um famoso é extremamente desejável. No entanto, isto não pode ser feito assim, de qualquer maneira, sob o risco de receber o rótulo de pessoa esnobe. Como o médio-classista padrão é convencido de que ser esnobe não é uma de suas qualidades, quem assim for rotulado perde pontos de credibilidade, sob a desconfiança de autopromoção explícita e gratuita. Logo, existe uma certa etiqueta para aplicar este recurso.
Em primeiro lugar, o fato de conhecer alguém famoso não deve ser o tema principal da conversa. Ele deve surgir naturalmente, dentro de outra conversa sobre qualquer assunto. Um exemplo: num papo sobre “literatura de qualidade”, você pode perguntar se alguém ali já leu o último livro do Paulo Coelho. Ignore as respostas, e complemente dizendo que o livro é ótimo, e que inclusive comentou isso, semana passada, com o "Guilherminho do BBB 3," quando você o encontrou buscando a “Julinha” na escola de balé.
Em seguida, demonstre possuir intimidade com o famoso. Explique que sua filha e a tal “Julinha” são colegas de balé. Diga isso como se todos soubessem que a filha do cara se chama Júlia, e que você a trata pelo diminutivo. Vai parecer que é algo tão natural pra você, que faz parte do seu dia-a-dia. Procure demonstrar que você vive no mesmo mundo que o famoso, compartilha o mesmo espaço e respira a mesma fumaça.
Neste ponto, alguns de seus colegas da Classe estarão suspirando, com orgulho do dia em que te conheceram. Outros terão uma suprema inveja, o que conta ainda mais pontos para ser aceito no grupo. Quando chegar neste nível, atenção: mude de assunto a qualquer custo. Sua missão estará cumprida, e você pode colocar tudo a perder se continuar falando. Há o risco de você acabar contando que viu este “famoso” apenas duas vezes na sua vida, sendo que na primeira implorou por uma foto com seu celular e um autógrafo em sua camisa, e na segunda o abordou de forma tão afoita que o famoso foi embora e te deixou falando sozinho. Isso é segredo! Ficar eufórico diante de uma “celebridade” é coisa de pobre. Logo, quando for fazê-lo, certifique-se de que não há ninguém olhando.