
Para ser um cidadão da Classe Média, é fundamental ter aprendido que este status significa ter muitos deveres e poucos direitos. Isto quer dizer que nem todos os deveres são tão “deveres” assim, pois a situação injusta é um salvo-conduto para utilizar um “jeitinho” de ficar livre de determinadas obrigações. É assim, por exemplo, com o bom e velho serviço militar obrigatório, aquele ao qual todo brasileiro do sexo masculino precisa se apresentar ao completar a maioridade e que, eventualmente, precisa servir.
Muitos pais de família medioclassistas guardam boas lembranças da época do serviço militar obrigatório. Normalmente o período é tido como uma fase de grande aprendizado e da conquista de boas amizades. Mas quando o patriarca pensa em seu rebento pós-adolescente às voltas com a possibilidade de enfrentar as situações que conhece bem, imediatamente aciona os mecanismos de superproteção em seu cérebro medioclassista. O Papai Classe Média sabe muito bem que aquelas mãos de pele fina, acostumadas apenas ao videogame, não são adequadas ao manuseio de fuzis, e aquele físico nada avantajado de “filho de apartamento” não é adequado para as flexões e para os terríveis cangurus diários. Imagine então ter que acordar o menino todos os dias de madrugada!
Por estes motivos, o patriarca faz questão de procurar “contatos”, pessoas ligadas a algum figurão de patente respeitada nas instituições militares, e através destas conexões, pedir para tirar dessa fria o imberbe filhote. Para evitar que o sangue-de-seu-sangue seja submetido à rígida hierarquia militar, tendo que obedecer a alguém de salário baixo, o aplicado papai vai em busca do tal figurão, munido de grande disposição para o diálogo, apelando para infindáveis coincidências da vida, lembrando da época em que serviu, dos possíveis amigos em comum, quem sabe algum conhecido que seguiu carreira no exército, e para provar que dá muito valor à instituição, não descarta bater continência, pagar ele mesmo dez flexões ou lustrar as botas do comandante.
Após esta primeira sessão de reconhecimento à grandeza do serviço militar, vem a parte dos “poréns”, com um vasto repertório de desculpas previamente ensaiado: vestibular, problemas de saúde, trabalho, a mãe preocupada. O militar escuta aquilo tudo, pondera, diz que vai quebrar o galho do papai desesperado e libera o menino. O chefe-de-família medioclassista vai embora feliz da vida e conta pra todos os amigos como a sua influência de bastidores livrou o filho do serviço militar obrigatório. O filho fica aliviado de poder continuar acordando às onze todos os dias. E o comandante do batalhão acumula mais uma história divertida sobre um sujeito de meia-idade que veio se humilhar por causa de um inscrito que já ia cair mesmo no excesso de contingente. Ou seja: no final, todo mundo sai feliz.