Espanta a intolerância para com críticas exibida, nas redes sociais, por muitos dos apoiadores incondicionais de Dilma Rousseff.Esse é, muito provavelmente, um dos principais contra-efeitos do desenho de forças que, nos últimos três anos, dominou a blogosfera: acostumados a uma divisão maniqueísta, em que de um lado se irmanavam os defensores do lulopetismo e os críticos da mídia e de outro os adversários representados pelo tucanato e pela mídia amiga, os primeiros ressentem-se de discordâncias advindas do próprio campo da esquerda, e reagem com pedras à mão – um “método” antes quase exclusivo de trolls tucanos.
Além da agressão grosseira pura e simples, recorrente nas redes sociais, há as tentativas de desqualificação pessoal e as acusações imaginosas: esta semana, até a de “bullying virtual” foi assacada...
Há, ainda, a falsa generalização, que consiste em dizer que alguém “matou o governo Dilma” ou que escreveu o “epitáfio” deste só porque fez meia dúzia de críticas pontuais ao início da gestão.
Blindagem autoritária
Mas, por mais que os intransigentes lamentem, Dilma e seu governo não são entes sagrados, inatacáveis, que devam ser preservados, imaculados, em uma bolha à prova de criticismo.
Tampouco o fato de que a gestão apenas se inicia, e tem muito tempo para se acertar – como espera-se que o faça - equivale a um dado que desautoriza a priori qualquer crítica - a não ser que o grau de autoritarismo seja tamanho que se queira estabelecer a partir de quando é permitido fazer críticas ao governo.
Ademais, a gestão tem menos de três meses, mas tomou tantas medidas controversas, contrárias ao discurso de campanha, que tem descontentado a muitos dos que a apoiaram entusiasticamente, enquanto surpreende de forma positiva a setores conservadores e da mídia corporativa, os quais se esforça para cooptar.
Política e fé
Dentre as estratégias genéricas de desqualificação, uma repetida com frequência pela pequena parcela dos apoiadores incondicionais do governo que reconhecem um mau começo é a de que devemos dar tempo ao tempo e, como ouvi um dia desses, que “no começo todos [os críticos] são PSOL, depois se acalmam”.
Além de não concordar com a generalização indevida de enquadrar qualquer crítica como alinhada ao PSOL – estratagema que pode vir a ser entendido, a depender do interlocutor, como uma forma de desqualificação -, tal postura espanta-me não apenas pela transformação da política em uma questão de fé, de certeza nas benesses vindouras, com todo o irracionalismo e fanatismo que tal mutação acarreta, mas pela dissociação pré-estabelecida entre os atos do governo e suas imediatas conseqüências e responsabilizações.
Pois achar que tudo é apenas uma questão de tempo equivale a isentar automaticamente e a priori a atual administração de todos os eventuais erros do presente em nome de bênçãos futuras que asseguradamente virão. “Como sabem que virão?” pergunto. Porque, respondem, a despeito dos dados atuais negativos, a fé cega nos diz que isso ocorrerá. Qualquer semelhança com sistemas de crença religiosa não é mera coincidência.
Outros preferem lembrar que o governo Lula também começou mal, com cortes orçamentais e "aperto de cintos", mas terminou em alto estilo, como se a administração do país fosse uma receita de bolo, bastando segui-la para obter os mesmos resultados. Desprezam, pois, o alerta do velho Marx, segundo o qual a história só se repete como farsa.
Egos feridos
Repetida amiúde, outra estratégia de desqualificação das opiniões discordantes é tachar seu emissor de arrogante e presunçoso, que “se acha a última batata frita do pacote”. À parte o dado cômico de tal “crítica” – e o que ela revela em termos de feridas egóicas - o que chama atenção é a renúncia ao questionamento e à crítica das ideias emitidas, em prol do ataque pessoal irrespondível.
Opiniões, a princípio, são feitas para ser refletidas, eventualmente aceitas, relativizadas ou rejeitadas. Descartá-las sem sequer considerá-las, desviando a atenção para uma alegada falta de qualificação ou para imaginosos traços de caráter de quem as emite, equivale a apostar no obscurantismo. Uma das grandes conquistas da internet é justamente o fim do monopólio da opinião por experts com anel de doutor no dedo e a substituição destes por cidadãos e cidadãs cujo trabalho será julgado pela pertinência (ou falta de pertinência) intrínseca ao material que produzem. Naturalmente, o que agrada a gregos tenderá a não agradar a troianos, mas, ao final, a tendência é prevalecer uma forma mais democrática de seleção.
Linchamento virtual
A despeito da natureza volátil da internet, penso que o ideal seria que àqueles que expressam suas opiniões de forma equilibrada, analítica, sem agredir a ninguém, fossem reservadas reações igualmente polidas, argumentativas e não-agressivas, ainda que discordantes.
Pois reagir com pedras nas mãos a comentários educados é coisa de turbas enfurecidas, não de quem diz professar a esperança na promoção da justiça social e no desenvolvimento do país por meios democráticos.
Do contrário, acabaremos por reproduzir, no seio da esquerda, a intolerância e a truculência que tanto criticamos na militância virtual tucana.
(Imagem retirada daqui)