Do que saiu em 2011 fiquei apenas sem "A pele que habito", de Pedro Almodóvar, e "Hugo", de Martin Scorcese. O primeiro perdi nos cinemas porque, admito, tenho certa má vontade com Almodóvar, embora reconheça nele algo que defendo -- trata-se de um genuíno cinema de autor. O segundo, de Scorcese, não vi simplesmente porque ainda não chegou aos cinemas do Brasil.
À exceção desses, vi o que o cinema em 2011 fez de melhor: "Meia-noite em Paris", de Woody Allen; "Cópia Fiel", de Abbas Kiarostami; "Poesia", de Lee Chang-dong; e "Melancolia", de Lars Von Trier.
Uma safra maravilhosa de filmes.
Mestres como Allen, Kiarostami e Von Trier já são conhecidos pelos leitores do Blog, bem como Almodóvar e Scorcese.
Fica, então, o prêmio do Blog para Lee Chang-dong, como melhor diretor.
"Cópia Fiel" como melhor filme.
A belíssima atuação de Owen Wilson em "Meia-noite em Paris" leva o prêmio de melhor ator, ao lado de Jeong-hee Yong, a protagonista de "Poesia".
Melhor música, claro, para a trilha sonora de "Meia-noite em Paris", cheia do Jazz francês da Bélle Epóque e das big bands de Benny Goodman e Duke Ellington.
O mais original de todos é, como há de ser, "Melancolia", de Lars Von Trier. Sempre Von Trier ganhará na categoria originalidade, simplesmente porque ele é o mais inventivo dos cineastas da atualidade. Apenas dois cineastas conseguem disputar com Von Trier -- os dois mestres franceses ainda na ativa, Jean-Luc Godard e Alan Resnais (ambos que, não por acaso, fizeram obras primas em 2010 -- "Film Socialisme" e "Ervas Daninhas", respectivamente).
Menção super honrosa para "O Palhaço", ótimo filme dirigido por Selton Mello, o mais versátil dos atores brasileiros na ativa. Assisti há algumas semanas aqui em Brasília e gostei muito do resultado -- o cinema brasileiro está precisando atuar nesta seara, para deixar o velho binômio de filmes com alguma mensagem social (como "Cidade de Deus" e os "Tropa de Elite") de um lado e os outros descerebrados do outro (como "Mulher Invisível", "Se eu Fosse Você").
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Sobre "Poesia", de Lee-Chang-dong, o Blog já tinha avisado que era genial em março.
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O crítico de cinema do Estadão, Luiz Carlos Merten, escreveu na edição de domingo uma bela matéria sobre a suposta terceira via que se abre no cinema brasileiro com "O Palhaço". Para abrir sua matéria, Merten fez um belo apanhado do cinema em 2011, que registro aqui:
Pense nos grandes momentos do cinema em 2011. O garoto olhando no fundo dos olhos do monstro para reencontrar o olhar da mãe em Super 8, de J. J. Abrams. Qualquer cena de Woody Allen com Marion Cotillard em Meia-noite em Paris. A sinceridade estampada no rosto de Cécile de France quando ela fala com o garoto da bicicleta, no filme dos irmãos Dardenne. O esplendor da Toscana filmada por Abbas Kiarostami em Cópia Fiel. A luminosidade do corpo celeste em choque com a Terra, no momento em que o menino consegue restaurar a noção de família, unindo as irmãs em Melancolia, de Lars Von Trier. Justamente a famílias fissurada de Poesia, do coreano Lee Chang-dong, e a avó que se reconstrói. E, claro, a cena em que o palhaço Paulo José, depois de aparentemente haver sido enganado pela amante jovem, a dispensa e manda embora em O Palhaço, de Selton Mello. Pedro Almodóvar, pois não se pode esquecer de A Pele Que Habito, é 'o' autor. Mais uma cena para ficar na lembrança. Elena Anaya olhando a foto daquilo que foi. Grandes momentos do cinema em 2011 construíram-se com trocas de olhares. Pois, como dizia o poeta Nicholas Ray - homenageado com uma bela retrospectiva -, o cinema é a melodia do olhar e tanto pode ser em filmes feitos com tecnologia digital como naqueles que ainda utilizam o bom e velho celuloide para sonhar acordado.
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É sintomático que o cinema americano tenha registrado em 2011 sua pior bilheteria.
Há uma confluência de fatores que explicam este fracasso: 1) a crise econômica e o alto desemprego corroeram o poder aquisitivo dos consumidores; 2) Hollywood vem, desde 2007-08, perdendo muito financiamento; 3) a fraqueza do outrora mais poderoso cinema do mundo demonstra, claramente, a perda de poder dos Estados Unidos.
Mas não vamos esquecer que os americanos ainda têm Woody Allen e Martin Scorcese.