O governo está convicto quanto a um resultado mais forte do PIB em 2012 – de no mínimo 4% – e as razões por trás dessa aceleração são justamente as mesmas que manterão a inflação pressionada. De acordo com uma fonte do alto escalão da equipe econômica, as razões que vão retirar pressão sobre os preços serão, predominantemente, externas. Por outro lado, a inflação continuará cerca de um ponto percentual acima da meta do BC por pressões internas, em especial aquelas oriundas do mercado de trabalho e do crédito.
Responsáveis pelo choque nos preços no país entre o fim de 2010 e o primeiro semestre de 2011, aos preços das commodities iniciaram trajetória de queda em setembro – movimento que deve se estender até o início do segundo trimestre do ano que vem, estima a equipe econômica. O índice de preços das principais commodities (o CRB) caiu 11% entre 1º de setembro e sexta-feira passada, e deve cair mais 7% a 9% até o início da recuperação, no segundo trimestre do ano que vem, prevê o governo.
O governo trabalha com uma terceira expansão monetária por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no primeiro semestre de 2012. Esta “nova enxurrada de dólares” não terá um leque muito amplo de ativos para aplicar, tendo em perspectiva que as agências de classificação de risco continuarão rebaixando as notas de países, bancos e empresas na União Europeia e nos Estados Unidos.
Assim, a liquidez mundial tende a retornar para a aplicação, segundo uma fonte no governo, em índices de preços de commodities, negociados na Bolsa de Valores de Chicago (EUA). “As commodities voltarão a subir, seja pela especulação, seja pela demanda real, que continua forte”, disse a mesma fonte, para quem as commodities não retomarão o pico recente, de 342,5 pontos (medido pelo CRB), em 31 de agosto. Na sexta-feira, o CRB fechou em XXX pontos. O avanço da safra de grãos no Brasil em 2012 – que o governo estima em 160,5 milhões de toneladas (0,6% maior que 2011) – servirá como contrapeso a pressões maiores.
O que vai impedir uma convergência do IPCA para uma taxa mais próxima aos 4,5% perseguidos pelo BC será justamente o crescimento econômico, que em 2012 contará com forte participação do consumo das famílias.
A equipe econômica trabalha com um salário mínimo de R$ 625 para o ano que vem, incorporando o provável resultado “arredondado politicamente”, uma vez que, pela regra costurada por Dilma e as centrais sindicais, o mínimo atingiria cerca de R$ 623. Este será o principal estímulo à elevação do PIB para 4%, que também terá maior participação dos investimentos públicos, represados ao longo de 2011 para fortalecer o cumprimento da meta de superávit primário.
“O governo fez uma excelente lição de casa neste ano”, disse uma fonte na equipe econômica, em referência ao superávit primário de 2011, “e isso se repetirá no ano que vem, ainda que os investimentos passem a ter um ritmo mais acelerado”, afirmou uma fonte do governo. O cenário traçado pela equipe econômica prevê investimentos da indústria, beneficiada pelo programa Brasil Maior, que começa em janeiro, e por medidas fiscais pontuais, como a redução do IPI para eletrodomésticos da linha branca e elevação do imposto para veículos com menos de 65% de conteúdo nacional, que entra em vigor na sexta-feira.
Além da consequência direta sobre os 19,6 milhões de aposentados e pensionistas pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) cujo benefício previdenciário é atrelado ao salário mínimo, o forte reajuste de 2012 também produzirá “poderoso efeito em cascata” sobre o mercado de trabalho formal. Uma fonte do primeiro escalão do governo deu um exemplo ao Valor: “um trabalhador com carteira assinada que recebe R$ 700 por mês em 2011, terá um reajuste salarial muito forte no ano que vem, apenas pela pressão exercida pelo mínimo, que terá se aproximado de seu salário”.
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Esta é minha matéria para o Valor, contando os bastidores da equipe econômica quanto à inflação no Brasil em 2012.