Desatou um caos social inacreditável.
Vinte dias depois do "corralito", De La Rúa renunciou ao cargo. Naquele momento, 20 de dezembro de 2001, a Argentina estava no fundo do poço mundial.
A saída, num primeiro momento, foi a pior possível. O governo aplicou enormes cortes de gastos públicos e mesmo elevações de impostos, resgatando todo e qualquer moedinha que lhe sobrava no Tesouro para pagar os empréstimos-ponte que recebia do exterior para continuar respirando. Os emprestadores em última instância, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), emprestavam a conta gotas, mas, em troca, exigiam mais e mais cortes de gastos. Se optasse pelo financiamento de mercado, raro, porém ainda existente entre 2001 e 2002, a Argentina teria de aceitar taxas de juros elevadíssimas, e apresentar um orçamento razoavelmente equilibrado como garantia de que haveria o pagamento.
A Argentina sangrou por todo o ano de 2002 nisso.
Aquela gravíssima crise, iniciada há exatos dez anos, em 01 de dezembro de 2001, foi o resultado de um dos mais irresponsáveis governos da história moderna: o de Carlos Menem, que governou o país de julho de 1989 a dezembro de 1999.
Menem saiu imediatamente antes das coisas degringolarem, então sua imagem nunca foi suficientemente ligada à destruição econômica do país, de 2001 a 2003. Tendo Domingo Cavallo como ministro das Finanças, Menem iniciou seu governo com o Plano Cavallo, que privatizou praticamente todos os serviços públicos -- algo salutar naquele momento, diga-se, mas não na proporção como foi feito e com o desleixo com que as privatizações foram conduzidas. Além disso, Menem permitiu o maior erro econômico a que um país pode fazer: abrir mão de sua moeda. A Argentina dolarizou sua economia, instituindo o currency board, algo que muito economista brasileiro, deslumbrado com as consequências de curto prazo no vizinho, defendeu por aqui.
Felizmente o governo Fernando Henrique Cardoso optou por um caminho distinto, ainda que, no primeiro mandato, tenha mantido uma política cambial irresponsável -- principalmente a partir de 1996, quando o câmbio fixo entre real e dólar já não era necessário para o controle da inflação como fora entre 1994 e 1995. Optamos, a partir de 1999, pelo bem sucedido regime de metas de inflação e câmbio flutuante.
Ainda precisamos mexer na política cambial, algo que nem FHC, nem Lula e, por enquanto, nem Dilma foram capazes de fazer. Mas isso é outra história.
Fato é que a Argentina pagou, em 2001, pelos gravíssimos erros do período Menem, de 1989 a 1999. Ele chegou a ser preso, em junho de 2001, sob a acusação de ter desviado recursos públicos para contas secretas mantidas em bancos suiços. Como qualquer coisa que envolva o país mais sem graça do mundo, a Suiça, nada foi comprovado, e Menem foi liberado.
A história, porém, tratou de apagar Menem... por enquanto.
A eleição de Néstor Kirchner, em abril de 2003, foi o primeiro passo para a saída da crise. Os primeiros anos de Kirchner foram um período sem igual de dinamismo econômico e intelectual -- até o início de 2006, Kirchner e seu fiel ministro das finanças, Roberto Lavagna, trataram de fazer o que era preciso para tirar a Argentina do buraco total: declararam uma moratória à dívida externa, e os investidores que aceitassem um desconto de 73% em seus vencimentos teriam seu dinheiro, os outros que entrassem na Justiça. Com caixa disponível, o governo começou a contratar funcionários e obras, e passou também a emitir bônus internos, denominados em pesos, sua moeda local, que aos poucos voltava a existir.
A economia começou a se recuperar rapidamente, e, com isso, as receitas do governo também. Assim, mais recursos eram despejados no mercado, que respondia tomando empréstimos e investindo. O peso era mantido desvalorizado frente ao dólar, o que impulsionou as exportações do país, e assim a entrada de dólares no país, o que foi fortalecendo as reservas do país. Nada disso, entre 2003 e o início de 2006, fez retomar a inflação.
Com um sentimento de missão cumprida, Kirchner enfim aceitou que Lavagna deixasse o governo, algo que o ministro, cansado da pressão a que foi colocado, tanto desejava.
Sem Lavagna e com a popularidade nas alturas, Kirchner, no entanto, começou a perder as estribeiras... e a Argentina começou a fazer as maluquices econômicas que hoje fazem parte do script do governo de sua mulher, Cristina, eleita em novembro de 2007 e reeleita em 2011. No campo político, as acertadas investidas do casal contra militares da ditadura fizeram com que esse Blog aplaudisse -- como sempre aplaudirá -- as iniciativas. Bem como a forte abertura do país, no campo social, a uma sociedade mais igualitária no terreno sexual.
Mas as peripécias econômicas ainda precisam ser resolvidas. A inflação começou a voltar em 2006, num óbvio resultado do melhor ritmo econômico, mas ao invés de combatê-la, Kirchner, já pensando em fazer da mulher sua sucessora em 2007, achou melhor intervir no instituto público de pesquisa de preços, o IBGE deles. Assim, desde 2007 que a inflação real corre a 20% ou 25% ao ano, mas os números oficiais são de apenas 8% ou 9%.
Hoje, Cristina se vê as voltas com grandes saques de dólares, novamente, da população. Com menos dólares disponíveis e por ainda estar fora do mercado mundial devido ao calote de 2002 e 2003, o Banco Central Argentino tem recorrido a um expediente extremo, que é a venda de dólares das reservas internacionais, de forma a sustentar o peso -- que já é muito desvalorizado e está prestes a se desvalorizar fortemente.
À luz dos 10 anos da crise argentina, já aviso ao leitor do Blog: não será surpresa se em 2012 o peso passar por uma forte desvalorização. Uma nova crise econômica na Argentina está sim no radar dos principais analistas econômicos.
Mas nada, nada mesmo, parecido com o que viveram em 2001.
Porque Kirchner pode ter os problemas que for. Mas, ao menos, Kirchner não é Menem.