Na sala da presidência da Caixa Econômica Federal (CEF) em São Paulo estavam sentados o empresário Sílvio Santos, o executivo Luiz Sebastião Sandoval, a então presidente da CEF, Maria Fernanda Coelho e o vice-presidente de Finanças da CEF, Márcio Percival.
Fecharam os últimos detalhes da operação que terminara com a compra, pela Caixa, de 49% do capital votante do Banco PanAmericano, um dos melhores bancos de médio porte do mercado financeiro brasileiro, controlado pelo Grupo Sílvio Santos, então comandado por Sandoval.
Terminada a reunião, todos seguem seus rumos.
Percival voltaria a Brasília naquele mesmo dia. Estava tranquilo, a operação que ele comandara desde o primeiro contato de Sandoval, em outubro de 2008, estava concluída -- a CEF já pagara os R$ 739,3 milhões ao PanAmericano -- e faltava apenas a homologação do Banco Central (BC) para que os diretores da CEF entrassem no conselho administrativo do PanAmericano. Dois meses antes, em julho de 2010, o BC tinha já concedido a pré-aprovação ao negócio.
Mas trinta minutos depois de terminada aquela reunião, o telefone de Percival tocou. Era Sandoval. O presidente do Grupo Sílvio Santos estava na sede do PanAmericano com todos os diretores do banco, onde recebeu Percival. Disse que havia uma inconsistência entre o sistema do PanAmericano e o sistema do Banco Central.
Naquele momento, o Banco Central já tinha verificado que havia um esquema.
Por meio de seu sistema de verificação do sistema financeiro nacional, o BC havia verificado que o balanço do PanAmericano era inconsistente com as informações levantadas junto às demais institucionais financeiras.
Em questão de dias, o BC avisou o dono -- o empresário Sílvio Santos -- que de prontidão foi ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) negociar um aporte bilionário.
Foi verificado um rombo de R$ 2,3 bilhões. Silvio Santos tomou R$ 2,5 bilhões do FGC, em negociação fechada com o presidente do fundo, Antônio Carlos Bueno, um dos maiores especialistas em sistema bancário do mundo. Como garantia, o empresário colocou até o SBT, seu canal de televisão e maior ativo.
Com o problema sanado, o BC autorizou a operação em novembro de 2010.
Em dezembro de 2010, no mês seguinte, a CEF entrou com cinco diretores no conselho de administração do PanAmericano, além de um diretor no comitê de auditoria interna. Naquele momento, a gestão do PanAmericano passou a ser da CEF, com 49%, e o restante pulverizado em ações (o PanAmericano abriu capital na Bovespa em novembro de 2007), com o FGC e o próprio PanAmericano.
A CEF, por meio da Caixa Par, seu braço de participação societária, contratou a PricewaterhouseCoopers, uma das maiores empresas de auditoria do mundo, para auxiliá-la na auditoria das contas do PanAmericano.
Em janeiro de 2011, percebeu que o buraco era mais embaixo.
O rombo era R$ 2 bilhões maior, ou seja, era de R$ 4,3 bilhões.
Os antigos diretores do PanAmericano precisam sair, todos eles. Não havia mais justificativa para ficarem por lá.
Percival, então, foi procurado por cinco bancos -- todos estavam interessados em obter participação no banco (justamente aquele deixada vazia pela saída total dos antigos diretores). Em maio, o BTG, do executivo André Esteves, venceu a competição e ficou com o negócio. Fez o primeiro pagamento, depois da pré-aprovação do Banco Central.
A homologação da participação do BTG no conselho administrativo veio no mês passado, em outubro de 2011.
Agora, novembro de 2011, a situação está, enfim, resolvida.
Do lado criminal, no entanto, ainda há muito o que fazer. Uma investigação sobre o complexo esquema de fraude contábil e operacional no PanAmericano corre solta na Polícia Federal. Como que aquele esquema conseguiu passar por debaixo dos olhos dos bancos que trabalharam na abertura de capital (o IPO) do PanAmericano, em novembro de 2007? Como que os auditores internacionais não conseguiram levantar o esquema quando trabalharam nas duas operações de captações externas feitas pelo PanAmericano, a última delas no primeiro semestre de 2010?
Aos olhos deste blogueiro, o esquema era complexo demais para ser captado por alguma instituição que não fosse o Banco Central (BC), que é o único agente habilitado a cruzar informações de todo o sistema financeiro nacional, e, assim, verificar qualquer inconsistência.
Mas, com toda a questão societária resolvida, o esquema poderá ser levantado de forma mais serena.