João era chato.
Imaginem um comunista convicto, que inventava todo tipo de mentira, era botafoguense fanático em um tempo em que todos eram Flamengo, entendia de futebol mais que todos os técnicos somados, e era totalmente contrário à ditadura militar.
Agora imaginem este mesmo homem como o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, em 1969, fazendo um time até então desacreditado jogar o futebol mais maravilhoso que se tem notícia no mundo. Era a seleção de Pelé, Jairzinho, Carlos Alberto, Gérson, Tostão, Rivelino. A seleção que unia o melhor do Santos, do Cruzeiro, do Botafogo, do Palmeiras, do Fluminense, do Corinthians.
O governo brasileiro estava nas mãos de uma junta militar, que prepava o terreno para a elevação do ditator Emílio Garrastazu Médici. Eram tempos de guerrilha no Araguaia. A ditadura assassinava jovens idealistas, destruía a vida de famílias, sumia com pessoas, torturava outras, censurava os jornais e a cultura, e expulsava quem era contrário.
"Brasil: ame-o ou deixe-o" era o slogan oficial, que estampava os carros da classe média ignorante à barbárie do governo. Mesmo amando o país, a maior parte da inteligência nacional teve de deixar o país justamente naquele ano de 1969. Em 13 de dezembro de 1968, no apagar das luzes do ditadot Alberto da Costa e Silva, o governo militar baixou o Ato Institucional número 5 (AI-5), fechou o Congresso Nacional e institucionalizou a selvageria.
Foram embora do Brasil, naquele 1969, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Glauber Rocha (que acabara de ganhar o prêmio de melhor filme em Cannes!), Augusto Boal, Geraldo Vandré, Hélio Oiticica, e tantos outros anônimos da cultura, como produtores, assistentes, doutores, historiadores, cientistas sociais e economistas. Foram se espalhar pelo mundo, indo encontrar outros ilustres brasileiros que já tinham deixado o país entre 1964 e 1969, como Darcy Ribeiro e Celso Furtado.
E o técnico da seleção brasileira era ninguém menos que aquele chato comunista, João Saldanha.
João era o mestre do Brasil. Falava a linguagem nacional, era magrelo, como a maior parte dos brasileiros famintos, mas muitíssimo inteligente. Falava rápido, entendia de tudo, e era um dos caras mais aclamados nas esquinas do Rio de Janeiro, onde era reconhecido por carnavalescos e boleiros.
A seleção havia perdido a Copa de 1966 ainda na primeira fase, com um futebol grotescamente ruim. Depois de levar as Copas de 1958 e 1962, o futebol brasileiro passou a tentar emular o que era praticado na Europa: aquele futebol duro, de marcação homem a homem, com resultados de 1 x 0 sendo entendidos como goleadas.
João, então, foi escolhido para assumir a seleção contra a vontade do governo, para tentar, como última alternativa, classificar o Brasil para ao menos disputar a Copa de 1970. Ele assumiu com o seguinte discurso: "olha, a seleção brasileira não precisava ficar imitando aqueles duros dos europeus. O Brasil tem que jogar como joga o brasileiro. Tem que ter ginga, tem que driblar, fazer muitos gols e não ter medo de ninguém. No Brasil só podem jogar feras".
Estavam criados os "feras de Saldanha", como passou a ser conhecida aquele time mágico de 1969 e 1970. O Brasil passou a vencer os jogos por 8 x 2, como fez na Colômbia, e chamar a atenção do mundo inteiro.
No último jogo da classificação, em dezembro de 1969, contra o Paraguai, o Maracanã recebeu seu público máximo histórico: 210 mil pessoas.
João classificou a seleção para a Copa do Mundo do México, a ser disputada em junho de 1970. Passou, então a preparar o time para a disputa. Naquele ano, o Brasil esqueceu os campeonatos regionais: não importava o que ocorreria no Campeonato Carioca, no Paulista, no Mineiro ou no Gaúcho. Em 1970, o brasileiro se preocupava em ver aquela seleção maravilhosa de Saldanha na Copa do Mundo.
Saldanha, no entanto, era chato e comunista.
Passou a rivalizar com Médici nos holofotes, e não via nenhum problema em discutir com Nelson Rodrigues, seu contra-parte tricolor nos saudosos programas futebolísticos da TV Globo, sobre política. Nelson era totalmente favorável à ditadura. João era totalmente contrário.
João passou a ser um problema, e a mídia, totalmente controlada pelos censores dos militares, passou a promover uma campanha violentíssima contra João.
O clima foi ficando péssimo e insustentável. Médici queria Dadá Maravilha, que jogava no Atlético MG, na seleção. João achava Dadá um bom jogador, mas não considerava ele um dos 23 "feras de Saldanha" que iriam a Copa. Aquele imbróglio, envolvendo Dadá, passou a ser o que faltava para o governo ter um bode expiatório.
Antes de ser demitido pela pressão militar, João resolveu deixar a seleção.
Assumiu Zagallo, que aceitou Dadá e ainda chamou Roberto, então atacante do Botafogo, para mascarar a convocação de Dadá. Zagallo aceitara o jogo de Médici, Saldanha não.
A seleção foi ao México e foi aquele show que todos nós conhecemos.
João também foi ao México, porque era viciado em futebol e era comentarista esportivo.
João era chato, e não tinha medo de ninguém. Nem de Médici.
***
A dupla de cineastas André Iki Siqueira e Beto Macedo está com um belíssimo documentário sobre a trajetória de João Saldanha, o mestre do Brasil, produzido pela TV Zero, a ser lançado. Chama-se simplesmente "João".
Tive a honra de assistir em primeira mão, por ser fã de Saldanha e por ser botafoguense.
André Iki Siqueira e Beto Macedo não se prendem à história envolvendo os anos de 1969 e 1970, como fiz aqui no post. No documentário, abordam toda a vida de Saldanha -- uma das mais ricas de que se tem notícia. Aquele contador de histórias, que dizia ter sido o primeiro brasileiro a encontrar Mao Tsé-Tung logo após a Revolução Chinesa de 1949, que entrara armado em General Severiano (sede do Botafogo no Rio) para dar tiro no mítico goleiro Manga, que ele jurava ter se vendido na final de 1967 (que o Botafogo, mesmo assim, ganhou), que tripudiara Médici e que não engolia desaforo de ninguém.
Era o João Sem Medo, como era chamado aquele comunista que todos seus desafetos viam como chato, mas que o povo brasileiro via como o sujeito mais boa praça do país.
O documentário de André e Beto fez o blogueiro ganhar uma sobrevida. Mesmo com todos os nossos problemas, um Brasil que teve espaço para João Saldanha pode, e deve, dar certo.