A União Europeia (leia-se, Angela Merkel, chanceler alemã, e Nicolas Sarkozy, premiê francês) fechou, na madrugada da quarta-feira, o plano de resgate da Grécia e amenização de sua gravíssima crise econômica interna. Resolveu-se que os bancos aceitariam um calote grego de 50% de sua dívida, e que o fundo europeu seria ampliado, de US$ 440 bilhões para quase US$ 1 trilhão.
Mas só isso não será capaz de evitar que a crise não atinja Itália ou Espanha -- fato que, se acontecer, será catastrófico para a economia mundial.
Os europeus precisam de mais dinheiro do que têm. Sarkozy, então, precisa sair a campo, pedindo dinheiro para quem pode emprestar.
O telefone de Barack Obama não tocou.
Mas o de Hu Jintao sim.
Na quinta-feira à noite, Sarkozy ligou para o primeiro-ministro chinês, Hu Jintao, para explicar o plano fechado pelos europeus no dia anterior, e falar que ele é aberto a empréstimos externos. Mas Sarkozy não ligou para explicar em primeira mão ao líder chinês o que os europeus estão fazendo para resolver a crise que abalou o mundo inteiro em 2011.
Sarkozy ligou para pedir dinheiro à China.
Hoje, segunda-feira, começa a reunião do G-20 na mítica cidade de Cannes (França), palco do mais brilhante festival de cinema.
Os ministros das finanças dos 20 países se encontram, hoje, para debater o plano europeu e outras medidas para evitar que a crise piore -- medidas salutares como regulação sobre especulação de preços de commodities e controle sobre fluxos de capitais. Amanhã será a vez dos "carregadores de pianos" se reunirem. São os secretários e assessores dos ministros, que tentarão encontrar formas de viabilizar aquilo que os ministros fecharão hoje. Na quarta-feira reúnem-se todos, ministros e assessores, para definir o que vai e o que não vai ser feito. Na quinta e sexta-feira será a vez do encontro entre os 20 presidentes e premiês. Lá estarão Sarkozy, Merkel, Obama, Jintao, Dilma Rousseff, Silvio Berlusconi, Luís Zapatero, David Cameron etc.
Todos interessados no plano europeu. Será que ele é suficiente para estancar essa crise infernal? Vai precisar de mais recursos?
Estive com uma fonte do alto escalão da equipe econômica brasileira na sexta-feira, por duas horas, em sua sala. Hoje ele está em Cannes. “Queremos entender como funcionará esse fundo de investimento que será criado, e somente a partir daí iniciar um debate quanto a nossa participação, via empréstimo de recursos”, afirmou. Mas o governo será enfático: a participação brasileira, caso ocorra, será por meio de negociação bilateral com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
A negociação bilateral é a forma mais dinâmica para destinação de recursos. O FMI estuda a criação de um “trust fund”, que seria aberto aos seus cotistas para aplicação no fundo a ser criado pelos europeus. O governo Dilma vai defender junto ao G-20 que os eventuais aportes com destinação específica à União Europeia sejam depois considerados na reforma do FMI – onde o Brasil pleiteia maior participação.
“Ainda não fomos procurados pelos europeus para explicar o funcionamento deste fundo e toda a amarração deste acordo para salvar a Grécia”, afirmou um interlocutor no governo. “Sabemos que [Nicolas] Sarkozy procurou os líderes chineses para falar do fundo, e que autoridades europeias devem ir à China, mas, por enquanto, o governo brasileiro não foi procurado”, disse. “Então não há como tomarmos uma decisão sobre algo que não conhecemos”, afirmou.
O Brasil, com um PIB de US$ 1,2 trilhão, não foi procurado. Nem os Estados Unidos, com um PIB de US$ 14 trilhões. Mas a China, com um PIB de US$ 4,2 trilhões, foi.
Por que?
Porque a China cresce a 10% ao ano, conta com US$ 1,4 trilhão em reservas para aplicar e é o grande exportador mundial. Os Estados Unidos, mesmo tendo um PIB dez vezes maior, está com uma dívida de 100% do PIB (ou seja, dos mesmos US$ 14 trilhões) e cresce, no máximo, a 2% ao ano.
Obama embarca para Cannes. E seu telefone continua sem tocar.
Os tempos estão mudando.