Renato Santanade Brasnorte, Mato Grosso (MT)
| O cacique mÿky Janãxi: “Tudo se acabou com o branco” - Foto: Renato SantanaOs caminhos que levam à aldeia Japuíra, região de Brasnorte, Mato Grosso, são tão novos para seus habitantes quanto aos visitantes de primeira viagem. Recém instalados, postes correm quilômetros de fios elétricos pela estrada de terra que se aprofunda na Amazônia matogrossense até a Terra Indígena Mÿky. Por entre os escombros de árvores derrubadas para a empreitada, macacos e demais bichos da floresta se precipitam no caminho e novamente, assustados, retornam para a mata. O hálito da selva é úmido e fresco. |
Saídos da pedraDe acordo com a cosmologia Mÿky, todos os seres humanos saíram de uma enorme pedra. Viviam lá sem saber das belezas que compunham o mundo, mas conviviam em comunidade, dançavam e cantavam. Certa vez, um urubu decidiu espiar por uma fresta o que existia fora da pedra e apanhou uma flor. Com ela, convenceu os demais a saírem – apesar dos questionamentos feitos sobre as brigas e violência que possivelmente os esperavam. O encanto pela beleza prevaleceu, e com a ajuda dos animais que já viviam no mundo, conseguiram sair da pedra. Dizem que apenas um ancião ficou por lá: não queria sofrer com as violências e doenças.Todos os povos indígenas que saíram foram viver embaixo de uma árvore. Os Mÿky foram para um pé de cambará. Os brancos também tiveram a sua árvore. No entanto, quando missionários indigenistas fizeram contato, em maio de 1971, os brancos não estavam mais contentes em ter sua própria árvore e há muito haviam passado a invadir a dos povos indígenas.Desde o início do século 20, os Mÿky passaram a sofrer massacres e violências de seringueiros. “(...) Então um deles, para melhor trucidar os misérrimos foragidos (indígenas que fugiam dos ataques), resolveu trepar à coberta de um dos ranchos, praticar nela uma abertura e por esta, metendo o cano da carabina, foi visando e abatendo, uma após outra, as pessoas que lá estavam, sem distinguir sexos nem idades”, relatou o padre jesuíta Dornstauder nas páginas de seu diário, em novembro de 1948.“Era pequeno, mas tenho na cabeça os mais velhos falando. Tudo se acabou com o branco e fazendeiro invade, destrói. Isso me preocupa”, diz o cacique Mÿky Janãxi. O contato teve como motivação os já seculares relatos dos atores de um desenvolvimento remoto que avançavam sobre os povos em liberdade, na ganância pelas riquezas dos territórios. Antes da chegada dos missionários jesuítas, durante o ano de 1971, já havia sido pedido para a Fundação Nacional do Índio (Funai) a demarcação das terras dos Mÿky do Escondido.O procedimento nunca foi feito e, nos dois anos posteriores ao contato, ataques de fazendeiros precipitaram-se sobre a aldeia Mÿky. “Então pude constatar que das malocas indígenas só havia restado um montão de destroços. O trator de esteiras trabalhava. Os índios haviam se retirado há dois dias, levando nas costas o que puderam. Foram enganados.”, declarou o jesuíta Thomaz de Aquino Lisboa. A denúncia do missionário garantiu a intervenção da Funai.
O menino que virou roça
| Crianças mÿky aprendem na escola o idioma dos seus ancestraisFoto: Renato Santana |
Anambu deu o algodãoO canto de uma nambu (espécie de ave) atraiu a atenção de uma mulher indígena que fazia corda para a confecção de redes. Quando a viu, prontamente começaram a conversar. Curiosa, a nambu perguntou o que a mulher estava fazendo. Ao saber, a nambu disse que era dona do algodão e que o daria para a indígena – que junto com o marido dominou o cultivo das roças de algodão. O mito representa a importância do cultivo do algodão entre os Mÿky. Mais do que isso, a importância que os seres da natureza representam para os indígenas.“Os brancos usam máquinas para derrubar tudo e vender a madeira. Por isso brigamos por nossos direitos. Queremos a mata inteira para as antas e os animais terem o que comer e terem vida. Sem nossa existência fica difícil”, diz o cacique Janãxi. A consciência dos Mÿky quanto à natureza é profunda. Diminuíram algumas caças porque observaram a diminuição de algumas espécies com a ação de madeireiros e latifundiários criadores de gado.Nos rios, a poluição também diminui, ano a ano, a quantidade de espécies de peixe para a pesca. A construção de uma usina hidrelétrica – a cerca de 8 km da aldeia - perto do rio Papagaio piorou a situação, pois gerou impactos na comunidade e em outros rios. “Na minha cabeça isso é motivo de grande preocupação. Os fazendeiros estão nos cercando feito galinhas num galinheiro, e nós estamos crescendo”, explica o cacique.A comunidade agora reivindica que todo o Território Indígena, 186 mil hectares, entre na demarcação feita pela Funai antes da Constituição de 1988. É nessa área não demarcada que atuam os fazendeiros e madeireiros – inclusive dentro da área demarcada, motivo da criação de um grupo de fiscalização entre os Mÿky. O laudo antropológico da Funai levantou mais de 100 locais de interesse dos indígenas fora da atual demarcação, como cemitérios, áreas de reza, caça e pesca, de onde foram expulsos por fazendeiros invasores.“Disseram que compraram nosso território. Fizeram mesmo foi nos expulsar”, conta Mãty’y Mÿky. Estradas são constantemente abertas para a passagem das carretas, a Funai não toma providências – se trata de uma área em processo de demarcação – e o Ibama diz que nada pode fazer pois está fora da área indígena. Segundo estimativas de representantes da prefeitura de Brasnorte, 200 mil metros cúbicos de madeira são retirados por mês do território. Para Warakuxi Mÿky, as mudanças nem sempre são ruins, mas é preciso garantir a cultura e o território: “A energia elétrica é boa, mas não podemos deixar nossos alimentos, nossas práticas, abandonar a roça. Agora é hora de intensificar isso tudo e ir lutar para que nosso território seja de fato nosso, para podermos proteger os animais e nosso futuro”.(Jornal Porantim)Fonte: Brasil de Fato