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Não é irônico que ditaduras como as que estamos ver balançar (e no caso do Egito, cair) tenham essa fraqueza ao lado da possibilidade do uso da força sem limitações? Contra o estado de poder total, o ser humano perde todo o medo, pois sabe e assume que já está morto. Ao fazê-lo ele se torna mais vivo que todos nós.
Esses homens e mulheres sabem que o estado pode buscá-los em casa um por um, e desse estado eles esperam a morte certa se forem identificados, e eles sabem que serão – seus rostos gravados em imagens tão múltiplas quanto o número de portadores de celulares.
Foram poucos momentos na história da humanidade que essa verdade brota da alma humana no momento de maior perigo. O momento em que pode-se perder tudo. O momento em que tudo pode ser ganho. Nesse instante decisivo o ser humano revela que de fato tem uma alma, uma anima. Ele não é feito de mecanismos apenas, como quer uma sociologia de modelo neutoniano: ele transcende esses mecanismos em momentos de verdade.
Claro está que o momento de verdade se perde. As forças da reprodução são sim muito potentes. Mas eu acho uma pena essas pessoas mortas em torno de mim que ficam aí falando “ah, caiu o ditador, mas tem que ver qual o corrupto que vai entrar no governo”. Essas pessoas perdem um ponto importante, sem o qual a história é sem possibilidades, a vida sem sal e sem gozo, e a sociedade é apenas pura reprodução mecânica.
É sim, cansativo, sofrer com toda essa violência que os povos árabes estão sofrendo neste momento. Mas também não choramos toda a repressão que eles sofreram por décadas sem chamar nossa atenção.
Mas essa coragem da qual eles mesmos falam, a coragem que” uma vez você ganha, não perde mais”, é algo magnífico. É uma consciência coletiva que aconteceu de ocorrer poucas vezes na história da humanidade. Eu nunca pensei que eu viveria para testemunhar.
Fotos:
Protesto na frente do hospital Salmaniya há pouco

Policial se junta aos protesters

seguindo: [www.google.com]
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Então, depois de tudo no Egito…
No Bahrain, as pessoas estão sendo mortas aos montes por estarem nas ruas pedindo democracia. O vídeo abre com uma médica chorando, gritando. Quando até o staff médico está chorando – médico é aquele cara treinado pra lidar com tragédia, certo? – é que a coisa é séria. Ela não é a única. Eu ouvi outras entrevistas, de médicos dizendo que os números de mortos são incontáveis e a situação é indescritível.
A aljazeera está passando vídeos que as pessoas fazem nos seus celulares, eles mostram gente sendo atingida por tiros na cabeça (não vou nem tentar mostrar aqui). Há mais gente reportando isso: que o exército entrou atirando pra matar.
A coisa está feia na Líbia também a polícia de Kadafi está atirando nas pessoas.
Eu mal consigo acompanhar tudo no Iemen, Afeganistão, Iraque.
Eu estou de dedos cruzados, torcendo por eles e desejando que essa tortura acabe, mas com vitória para o povo pró-democracia, e com o coração na mão, como sempre.
Não sei o que a mídia brasileira tá dizendo, e eu estou sem tempo.
Enquanto faço a tradução da página da pós do IFUSP, uma orelha está colada no [english.aljazeera.net] então lá vai o meu resumo a quem quer que interesse: ]
Mais gente chega à praça Tahir (da Liberação) pela primeira vez, se juntando aos outros muitos já lá. Essas pessoas sabem que esse seu ato é um caminho sem volta, e elas vão ter que ficar lá até o derradeiro fim: se elas desistirem, o governo Mubarak retorna à normalidade e elas correm o risco de serem caçadas. A praça está cercada pelo exército que se mantém neutro e milícias de policiais à paisana e gente paga pelo regime.
De dia aparente tranquilidade, à noite atiradores, coquetéis molotov lançados dos prédios em volta, etc. Murabak fez promessas que pareceriam talvez à Fox ou à CNN ser a solução, mas o buraco é mais em baixo: isso já aconteceu antes: retomada a normalidade, nada ocorre, e a caçada humana se inicia. A única saída dessas pessoas é -- de verdade -- o Murabak fora do poder.Por isso é que mesmo com essas promessas tão bem feitas, a multidão não arreda o pé da praça.
abaixo, cenas violentas na quarta-feira na praça Tahir
Sério. Faz tempo que eu ando sem tempo de bloguejar, mas hoje tá dificir de se guentar.
Juro: eu queria muito que alguém me resumisse em umas duas linhas o que a nossa imprensa anda dizendo das revoltas no oriente médio. Duas linhas: com a ajuda de um respira fundo e um comando mental tipo “okay, vamulá”, é a conta de toda a paciência que o meu copinho cheio tem com a nossa grande mídia.
É previsível o discurso Folha-Veja-Globo, etc:
Oriente Médio = Árabe
Árabe = Muçulmano
Muçulmano = fundamentalista religioso = uma turba irracional.
Então se eu estiver muuuuito enganada, e não é bem isso que eles estão dizendo, é só avisar, meus queridos.
Como é que eu estou acompanhando a notícia?O que está acontecendo no Oriente Médio: Egito, Tunísia, Iêmen, Jordão…
Creio que é simples. É uma história que começa com a implantação do estado de Israel e a formação de uma aliança com os EUA que – entra governo, sai governo – continua a mesma. Os spin-offs desse seriado de sucesso são a série de governos ditatoriais implementados com a ajuda dos EUA para garantir a proteção dessa jóia preciosa que é a zona petroleira incrustada, para a infelicidade das populações que ali têm o infortúnio de viver, nessa região que chamamos de Mundo Árabe.
As pessoas estão demonstrando – com a sua coragem inimaginável – que estão fartos dessas ditaduras. Elas querem DEMOCRACIA.
Isso escancara a posição sui generis na qual os EUA há décadas se encontram: Eles, os “defensores da democracia”, há tempos devotam recursos, negociações e pressão política à manutenção dessas várias ditaduras. Eles, defensores da democracia deles, são avessos à democracia dos outros.
E não adianta vir esse sem-espinha americano – o hipócrita dentre hipócritas, que sem ter alianças prévias foi eleito por uma das maiores demonstrações de vontade popular de voto que eu já ví e que então transforma esse momento de verdade – que foi o voto num candidato alternativo às máfias eleitorais constituídas – em uma farsa. Esse cara vai em frente às câmeras pra dizer “Não se pode escolher o líder do Egito por eles” quando há décadas é isso que os EUA fazem… Cara… Obama vai passar para a história como o maior azeda-esperança da história.
é isso.
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